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Relativismo e absolutismo moral: fronteiras e meandros

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  Relativismo e absolutismo moral: fronteiras e meandros   Muito se fala atualmente sobre certo relativismo moral fortemente presente em nossa cultura, o que é um fato, considerando que há certa ideia vastamente difundida de que a verdade é sempre relativa, ou seja, haveria muitas verdades possíveis, não havendo como se estabelecer uma hierarquia entre elas, inclusive entre as verdades morais. O mais óbvio é reconhecer que tal relativismo é uma expressão do individualismo , haja vista que os julgamentos são extremamente individualizados. Trata-se do pensamento “ para mim, isso está certo ”, ainda que não necessariamente os indivíduos consigam justificar o motivo pelo qual defendem esta ou aquela opinião. Cada sujeito julga ser correto aquilo que convém aos seus próprios interesses e desejos. Por outro lado, há aqueles que apontam o dedo para o relativismo moral vigente. Usualmente, tais pessoas defendem códigos morais extremamente monolíticos e refratários a mudanças necessári

Tradição e Moralidade

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   Tradição e Moralidade Por via das tradições aprendemos o que a humanidade já construiu, já pensou e já viveu. Isso inclui a máxima sabedoria, a justiça, a bondade e a beleza, assim como a máxima estupidez, a injustiça, a maldade e a feiura. As tradições podem manter vivos e estimular os caminhos do bem e do aprimoramento moral, assim como solidificar caminhos nefastos, geradores de todo tipo de sofrimento e opressão, que poderiam já ter sido extintos caso não fizessem parte de tradições fortemente estabelecidas e monolíticas, refratárias a mudanças necessárias. Se uma tradição defende que o ideal moral é a realização de certos comportamentos claramente imorais, temos a existência de um  simulacro ético, um simulacro da moral , no qual  o real significado das palavras se perde , pois se torna possível defender a compaixão, a bondade e a justiça, como termos estruturais de tal cosmovisão, sendo o conteúdo que preenche tais termos o oposto da    compaixão, da bondade e da justiça. Nenh

Sobre a experiência do sobrenatural: a busca pela ética

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  Preocupar-se com a ética é se preocupar com a correção de nossos atos. Preocupar-se com a correção de nossos atos é, primordialmente, preocupar-se com o modo como eles podem gerar sofrimento para outros seres e com os impactos de nossos atos aos ambientes que possibilitam a qualidade de vida de todos os seres. As preocupações de ordem ética são, portanto, de natureza diversa das preocupações estritamente ligadas à sobrevivência. O foco na sobrevivência, imperativo na ordem natural, dita a preponderância dos atos básicos da sobrevivência (se alimentar, reproduzir-se, competir por território ou poder) sobre quaisquer outras atitudes. Na prática, isso significa que, virtualmente, tudo é válido na busca da própria sobrevivência, independentemente dos prejuízos e sofrimentos impostos por tal busca a outros seres. Eis um resumo da lógica natural. A ética, ao limitar o escopo válido de nossas ações, mesmo que isso prejudique aspectos de nossa própria sobrevivência, transcende em nós

A Revolução da Lâmina (Pseudohaikai, 2023)

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  A REVOLUÇÃO DA LÂMINA INTRINSECAMENTE SUBVERTE O ANIMAL CONTIDO

O dia em que a humanidade alcançou o conhecimento total (Conto, 2023)

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  Chegou, como inexoravelmente haveria de chegar, o dia em que se concluiu o vetusto e edênico projeto humano de ser como Deus. A fruta foi deglutida e a Torre concluída. Naquele dia, o último detalhe sobre a última dúvida foi sanado. Nada mais havia de incerteza sobre questões como o início e o desenvolvimento do Universo, o surgimento do primeiro ser vivo, a maneira como a evolução biológica agiu em cada ramo da árvore da vida, a origem e a natureza da consciência e o modo como cada letra do imenso livro dos códigos genéticos opera individualmente e em comunhão com todas as outras. Compreendeu-se também todas as forças por trás da matéria e da energia e como elas se relacionam. Tudo o que se poderia conhecer já era conhecido em demasia e perfeição: cada processo, por mais sutil que seja, de cada corpo, de cada espécie, de cada paisagem… cada emoção, cada doença, cada síndrome, cada fenômeno atmosférico, astronômico ou tectônico… absolutamente tudo, toda a física, toda a química, toda

Veganismo: da natureza para a ética

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Somos animais. Assim sendo, desde nossa origem neste planeta, tentamos sobreviver enfrentando diariamente a luta pela vida. Com tal fim, aproveitando nosso aparelho digestório apto ao onivorismo, começamos a comer animais há mais de dois milhões de anos. Nada mais normal em uma natureza brutal estruturada sobre o ato de devorar aos demais para se manter vivo. Contudo, ainda que, do ponto de vista da manutenção do corpo, sejamos seres naturais, há algo que nos diferencia de outras espécies: algo que fez com que tenhamos começado a achar que não podemos obter nossas necessidades pegando objetos de pessoas que não os tenham nos dado, que não devemos satisfazer nossos desejos sexuais apenas pegando outras pessoas à força ou que não deveríamos matar outras pessoas apenas por fazerem parte de um grupo originário de outro território. A esse algo, costumamos chamar de ética. Derivada da mesma consciência privilegiada que gerou a ética, desenvolvemos também ciência sobre o mundo, e, neste proce

Paredes de vidro: os erros de Paul McCartney

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Paul McCartney (que, absurdamente, após décadas defendendo o vegetarianismo, nunca se tornou vegano) disse que se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos. Pois bem: muitos anos se passaram depois que isso foi dito e, apesar de os matadores não terem envidraçado suas paredes, a “quarta parede” caiu. Diversos filmes, amadores ou profissionais, expuseram com total crueza o que se passa atrás das paredes opacas. Nem seria mais preciso espionarmos de fora, através do vidro. Fomos levados para dentro dos matadouros. Nossas mentes puderam se conectar com a câmera-olho, de modo que estivéssemos lá, internamente, no calor e no terror da barbárie. Alguns humanos viram, refletiram e concluíram: o veganismo é uma necessidade ética para nossos tempos. A maioria, contudo, seguiu inerte, inabalada, e isso inclui parte substancial daqueles que também viram. A realidade é que as paredes poderiam ser de vidro, os abatedouros poderiam ser em praças públicas, ou mesmo na cozinha